Vale a pena ser feliz

domingo, 29 de julho de 2012

Para Woody Allen com Amor


Este ano tive a oportunidade de me presentear com todos os filmes de Woody Allen e fiz para mim uma temporada especial com este cineasta peculiar. Aprendi a perceber a sutileza de suas sátiras e a inclusão proposital de obras artísticas em todos os seus filmes, dando-nos uma oportunidade de melhor inserir em seu contexto cultural.

 Já fiz uma postagem sobre ele no meu blog "É Diferente",(http://diferentedooutro.blogspot.com.br/2012_02_23_archive.html(http://diferentedooutro.blogspot.com.br/2012_02_23_archive.html), onde lhe marco com o desígnio de diferente. Mas hoje, especialmente, quero falar de seu último filme "Para Roma com Amor".


 


 Nessa trajetória que ele firmou de filmar em outros países, desde a época em que se aborreceu com a produção americana, e eu sei disso segundo uma entrevista onde ele declarou que a maioria do cinema americano está calcada em agradar a plateia infantilizada e estúpida, com ideias velhas como um puro reflexo da sociedade americana, que Allen vem dando uma nova ação em seu curso cinematográfico. Enfim, o caráter essencial dessa fase europeia do diretor é o descontentamento.

 Na última década, o diretor nova iorquino, com exceção de seu único filme rodado nos EUA que foi "Tudo pode dar certo" (2009), tem se dedicado a um tour pelo Velho Continente, trazendo à tona, como em nenhum outro momento de sua carreira, um enredo que dá uma forma divertida e sutil de como retratar as cidades.

 


Nos seus últimos filmes, percebi um certo cuidado em mostrar aspectos positivos dos lugares e de seu povo. Desde Match Point (2005), ambientado em Londres, o cineasta vem se dedicando a fazer seus filmes destacando o privilégio das cidades europeias. Sua tour pelo velho continente já passou por Londres (em Match Point, Scoop - o grande furo, O sonho de Cassandra e Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos), Barcelona (em Vicky Cristina Barcelona), Paris (em Meia Noite em Paris) e agora Roma (em Para Roma com Amor).

 Diferente do seu filme anterior, Meia-Noite em Paris , a história não reflete a alma cultural, romântica e atemporal da cidade, mas passeia por obviedades e noções amplas do que é Roma. A locomoção pelas ruelas mostra-nos com encanto as ruínas da cidade e de certos lugares que atiçam nossa imaginação. Saí do cinema com vontade de ir para o aeroporto e pegar um vôo para Roma (aliás das poucas cidades que conheço, Roma foi a que mais me encantou e que me deixou com um cheiro de nostalgia e deslumbramento).


 


 Vai ser muito difícil encontrar alguém que não tenha rido ou se encantado em um ponto ou outro do filme. Inspirado no Decamerão, o filme é montado por quatro histórias paralelas que envolvem traição e fama e como o ser humano pode agir nessas situações. Os conflitos e situações de extremos são típicas do diretor, que sempre explora nas amenidades do cotidiano os profundos conflitos da mente humana. O forte de Allen são seus personagens e a forma como ele destrincha suas inseguranças, medos e neuroses. A graça de seus filmes é a lupa colocada nessas relações, nas brigas e detalhes de cada personalidade que nada mais são do que os nossos próprios reflexos das nossas próprias relações emocionais. Mesmo assim, podemos notar o humor e a sua criatividade.

 


Interessante é que o filme inicialmente teria seu título como “Bop Decameron”, mas Woody Allen o alterou após constatar que poucas pessoas conheciam a obra Decamerão nos dias de hoje.

 No longa-metragem "Para Roma com Amor", Allen dividiu o filme em quatro tramas distintas que não tem relação entre si, somente o cenário de Roma que tem semelhança. As quatro histórias distintas, que jamais se cruzam, abordam um conhecido arquiteto americano revivendo sua juventude; um morador de Roma que se vê de repente como uma grande celebridade da cidade; um casal de jovens que vivem encontros e desencontros românticos; e um diretor de ópera que faz de um agente funerário um cantor de óperas, de forma singular.

 

É uma novidade no roteiro que lida com quatro histórias com protagonistas distintos, num formato que remete às comédias italianas como Boccaccio 70. Porém, o diferencial de "Para Roma, com Amor" está no modo em como elas são processadas na tela, contadas individualmente. Ao impor este intervalo entre partes de suas histórias, o cineasta faz um filme dinâmico.

 Ao final, todas as histórias respeitam o tempo ideal de duração, não criando aquela sensação de que foram longas ou curtas demais. Sem dizer que é uma agradável surpresa rever Woody Allen em frente às câmeras. Sem atuar desde Scoop – O Grande Furo, o veterano retorna aqui para fazer aquele famoso neurótico responsável por diálogos de puro sarcasmo.

 Como já é habitual nos filmes de Woody Allen, o elenco é estrelar: Ellen Page, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Alison Pill, Alec Baldwin, Greta Gerwig, Roberto Benigni, Judy Davis e Ornella Muti. O filme apresenta a bela fotografia de Darius Khondji (o mesmo de "Meia-Noite em Paris"), mostrando a Cidade Eterna em um colorido quente.


 

Dizem os críticos que o roteiro pode não estar na mesma altura de outros trabalhos de Allen, mas eu acho que é superior a muito do que há nas telas ultimamente.

 E como última observação há de ser destacada a seleção de músicas e a escolha do grande tenor Fabio Armiliato (nascido em Gênova ), um famoso tenor italiano, agora tornado o mais famoso para o público americano por causa do seu papel como Giancarlo, que é o agente funerário no filme.

 No mais, a leveza e a descontração do filme e a série de pequenas histórias que remetem à comédia italiana trazem um prazer que poucos filmes recentes conseguem proporcionar. E mais uma vez mostra a genialidade desse cineasta que brinca com a própria situação, ao falar, na boca de seu personagem, que não deseja se aposentar, pois isso indicaria a morte iminente. Que ele pois continue seguindo sua jornada de um filme por ano, seja na Europa, seja nos EUA, ou quem sabe no Brasil? Para a nossa alegria e para a da enorme lista de atores e atrizes que desejam trabalhar com este diretor, pelo prazer e pelo prestígio de trabalhar com Allen.

 

 Vale a pena conferir. É um filme muito leve, alegre e divertido. Vá sem medo de errar porque VALE A PENA!


Levic

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O mago da Sapucaí




Para quem acompanha o carnaval , que não é o meu caso, bem sabe a força que carrega hoje o nome de Paulo Barros, sinônimo de show na Marquês de Sapucaí, que nos últimos dois anos, o carnavalesco fez os espectadores prenderem o fôlego com as inovações dos desfiles da escola Unidos da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Na verdade, tomei conhecimento do seu trabalho artístico somente em 2010, quando conquistou seu primeiro título no Grupo Especial com o tema "É Segredo", com a sua ousadia e destemor. Ao dizer não ao tradicional, trouxe para a pista o nunca visto, o que muitos julgavam impossível de acontecer e que um carro alegórico pode ser substituído por pessoas. O uso do ilusionismo fez com que a comissão de frente surpreendesse com as trocas misteriosas de roupas e os carros que traziam super-heróis.

Assim, o ex-comissário de bordo, estudante de arquitetura e artes plásticas e professor de inglês se transformou em mestre e em doutor ao levar para a Sapucaí um encantamento surpreendente, herança de outro gigante do carnaval. Nascido e criado em Nilópolis, terra da Beija-Flor de Nilópolis, Paulo Barros passou a adolescência de olho nas propostas inovadoras de Joãosinho Trinta.

Barros iniciou sua carreira como carnavalesco em 1995, na Escola de Samba Vizinha Faladeira. Passou pela escola Arranco do Engenho de Dentro entre 1999 e 2001, para voltar à Faladeira em 2002. Naquele ano, fez um desfile que marcou o seu estilo, ao utilizar materiais não convencionais. Em 2003, na escola Paraíso do Tuiuti, homenageou Cândido Portinari por ocasião do centenário de sua morte, que chamou a atenção das escolas do grupo especial. Contratado pela Unidos da Tijuca em 2004 arrematou o primeiro vice-campeonato. Foi logo nesse primeiro desfile que o carnavalesco surpreendeu público e crítica ao levar para a avenida uma alegoria humana – o carro do DNA (a alegoria era formada pela coreografia dos 127 componentes, pintados de azul e foi considerada a criação mais inovadora do Carnaval daquele ano).



Depois de passagens por Viradouro e Vila Isabel, voltou à Tijuca para, depois de ganhar estandartes de ouro e ser campeão em 2010, com o enredo “É Segredo”. O carnavalesco já colocou integrantes de cabeça para baixo e tirou a bateria do chão, colocando-a em cima de um carro alegórico. Pelo histórico, é difícil imaginar o que saiu da cabeça de Paulo e ainda estar por vir.

Em 2011 com o enredo ‘Esta noite levarei sua alma’, que abordou o medo em diversos aspectos, fez o autor dizer ‘Eu não tenho medo de arriscar’.




Hoje, em 2012, Paulo Barros novamente ganha a fama de o "Mago da Sapucaí", não a toa mas por puro merecimento, embora ao lado do reconhecimento também tenha conhecido a força das críticas. Muitos acharam que o carnavalesco queria fazer do asfalto um musical de Hollywood. Mas a resistência cedeu com a Avenida hipnotizada mais uma vez pela obra do carnavalesco. Paulo Barros surpreendeu e conquistou o público e os jurados, começando pela criatividade que misturou molas com sanfonas na comissão de frente, o belo espetáculo do casal de mestre-sala e porta-bandeira e um carro inteiro, todo feito de barro, que ganhou vida, além, é lógico, das alegorias humanas, a sua marca registrada.




O carnavalesco brindou o público com um espetáculo para deixar qualquer um boquiaberto. Até mesmo os jurados, que normalmente se mantêm impassíveis, aplaudiram de pé a passagem do último carro.

Com o enredo “O dia em que toda a realeza desembarcou na Avenida para coroar o rei Luiz do Sertão”, a Tijuca conseguiu transportar a plateia para a Recife de Luiz Gonzaga, com suas alas e carros criativos. Paulo Barros, que nos dois últimos carnavais retratou temas mais abstratos, disse que a mudança no estilo do tema não afetou o trabalho.

Nos carros alegóricos, está a marca do artista: renovação, com coreografias, interpretações e personagens vibrantes e agora, sejamos justos: depois de Paulo Barros, a performance das escolas de samba passou a ser nivelada mais por semelhanças do que diferenças.




Levic
Levic

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uggy no filme "O Artista"






Existem detalhes que me deixam, às vezes, boquiaberta quando me deparo com a tamanha sensilibidade do autor da obra ao colocar esses detalhes na sua composição e estes virarem elementos inseparáveis do tema central. Confesso que me dá uma inveja de eu não ser tão criativa...E foi o que me aconteceu ao assistir o filme "O Artista", o filme mudo do diretor e roteirista francês Michel Hazanavicius que atinge muitas metas aparentemente impossíveis - como fazer um filme mudo relevante e agradável em 2011- mas principalmente por colocar o cão Uggie como um "ator coadjuvante". Ele faz com que Uggie - assim como Jean Dujardin e Berenice Bejo - apareçam como figuras maravilhosas!

Michel Hazanavicius conseguiu recriar na tela grande a experiência cinematografia em preto e branco, de mais de 80 anos atrás, com estilo, que cativa audiências modernas acostumadas ao colorido e aos recursos dos efeitos especiais explorados atualmente. É um filme sobre o fim da idade silenciosa de Hollywood.

Jean Dujardin é engraçado e comovente e Berenice Bejo é absolutamente radiante, mas a verdadeira estrela do filme é Uggy, o cão. Um bonito e divertido Jack Russell Terrier, ele faz parte integrante da trama, aparecendo como o ajudante nas esquetes de Zorro, acrescentando pungência e humor às cenas tristes, e nos dando motivos para gargalhadas com o seu o seu jeito de agir.



O parceirinho de Dujardin é um verdadeiro profissional, já tendo atuado em doze filmes. Entre suas performances mais conhecidas, destacam-se o seu estilo perfeito de correr, fingir estar morto, buscar ajuda, chamar a polícia e andar de skate. Jean Dujardin explicou, rindo, que com dois hot-dogs se consegue milagres do ator de quatro patas.

Eu que sempre acompanhei as ilustrações de Hergé para "As Aventuras de Tin-Tin" (agora em filme por Spielberg) não pude deixar de me emocionar ainda mais pelas lembranças infantis...Os personagens Tintim (um jovem jornalista) e Milu (seu cachorro) apareceram pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado aos jovens e posteriormente acabou ganhando uma série animada. (Ver blog http://www.tintimportintim.com/).




O filme conta a história de George Valentin (Jean Dujardin) arrojado, bonito, bigode da moda, encantadoramente narcisista, artista famoso do cinema mudo que cai em espiral na sua carreira, com o advento dos 'talkies', da chegada triunfal do cinema falado, onde encontra a vivaz e sorridente Peppy Miller (Berenice Bejo).

Peppy, uma dançarina ambiciosa de olhos maravilhosos, por sugestão de Valentin, adota uma pinta no rosto como toque de beleza, e antes que ela possa entender é o novo rosto da "Revista Variety", uma sensação "talkie 'star", em ascensão.

Seu amor em silêncio por Valentin, um produto do destino e da sorte, é misturado com comédia,
melodrama e com um 'finale' de sapateado que inexplicavelmente não se pode classificá-lo em "musical ou comédia" ou "drama". Aliás, existe uma trilha sonora original, por Ludovic Bource, que ganhou um Globo de Ouro.

" O Artista" estreou no Festival de Cannes 2011, onde Jean Dujardin ganhou o prêmio de melhor ator. Desde então, seguiu-se com um Globo de Ouro de melhor ator. Globos de Ouro foram também concedidos para melhor musical / filme de comédia e melhor trilha sonora original musical - o que só serve para mostrar que o silêncio é de ouro!



Fiel à forma, Uggy roubou a cena mesmo na premiação Globo de Ouro, implorando por um tratamento, enquanto o diretor do filme estava fazendo um discurso. Uggy compareceu completamente nu, com uma única gravata. Entretanto, para o Oscar ele não foi convidado! Ver
maiores detalhes em http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/02/uggie-de-o-artista-leva-o-premio-coleira-de-ouro-de-melhor-ator-canino-3663506.html

e

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1049012-cao-uggie-de-o-artista-nao-foi-convidado-para-cerimonia-do-oscar.shtml



Há muito mais para admirar em O Artista é claro, mas Uggy foi a minha parte favorita.

Levic